Lula reconheceu as conquistas progressistas em favor de trabalhadores, mulheres, negros e da comunidade LGBTQIA+. Contudo, o presidente ressaltou que a esquerda falhou em desafiar o paradigma econômico vigente, o que permitiu o avanço de ideologias reacionárias.
O presidente criticou veementemente o neoliberalismo, afirmando que, apesar das promessas de prosperidade, ele resultou em "fome, desigualdade e insegurança", gerando sucessivas crises. Lula lamentou que até mesmo governos de esquerda tenham "sucumbido à ortodoxia", atuando como "gerentes das mazelas do neoliberalismo" e abandonando políticas públicas em prol da governabilidade, o que os fez "se tornar o sistema" e abriu espaço para que a direita se posicionasse como "antissistema".
Para o líder brasileiro, a coerência deve ser o princípio fundamental dos progressistas.
Ele enfatizou que é inaceitável ser eleito com uma plataforma e, posteriormente, implementar outra. "Não podemos trair a confiança do povo", declarou, observando que, embora muitos não se identifiquem como progressistas, anseiam por propostas como alimentação e moradia dignas, educação e saúde de qualidade, políticas climáticas e ambientais responsáveis, um ambiente limpo, trabalho decente e salários justos.
Lula argumentou que a extrema-direita soube explorar o descontentamento gerado pelas promessas não realizadas do neoliberalismo.
"Canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras", disse, apontando que grupos vulneráveis como mulheres, negros, LGBTQIA+ e imigrantes se tornaram alvos de discursos de ódio.
Mais cedo, na mesma cidade, o presidente brasileiro havia participado da quarta edição do Fórum Democracia Sempre, ao lado de diversas lideranças globais. Essa iniciativa, lançada em 2024, congrega os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. O encontro em Barcelona, organizado pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, também teve a presença dos presidentes Yamandú Orsi (Uruguai), Gustavo Petro (Colômbia), Cyril Ramaphosa (África do Sul), Claudia Sheinbaum (México) e do ex-presidente do Chile Gabriel Boric.
A crítica aos bilionários e à desigualdade
Dirigindo-se à audiência de ativistas progressistas, Lula defendeu que os verdadeiros responsáveis pela crise socioeconômica são os poucos bilionários que detêm a maior parte da riqueza global. Ele criticou a "falácia da meritocracia", afirmando que esses indivíduos buscam fazer crer que "qualquer um pode chegar lá", mas "chutam a escada" para impedir a ascensão alheia. Além disso, os acusou de sonegar impostos, explorar trabalhadores, devastar o meio ambiente e manipular algoritmos. Para o presidente, "a desigualdade não é um fato, é uma escolha política", e o compromisso progressista reside em "escolher a igualdade", permanecendo "sempre ao lado do povo".
O papel do Sul Global e a crítica aos "senhores da guerra"
Lula reiterou sua crítica aos líderes dos países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, referindo-se a eles como "senhores da guerra". Ele censurou o vultoso investimento em armamentos, que, em sua visão, poderia ser direcionado para erradicar a fome, solucionar a crise energética e garantir acesso universal à saúde.
O presidente destacou que o Sul Global arca com as consequências de conflitos e alterações climáticas que não originou, sendo tratado como "quintal das grandes potências", sobrecarregado por tarifas e dívidas impagáveis, e reduzido a mero fornecedor de matérias-primas. Para Lula, o progressismo internacional implica defender um multilateralismo reformado, priorizar a paz sobre a força, combater a fome, proteger o meio ambiente e restaurar a credibilidade da ONU, abalada pela "irresponsabilidade de seus membros permanentes".
A ameaça real da extrema-direita
Em outro ponto de sua fala, Lula alertou que a ameaça da extrema-direita transcende a retórica, sendo uma realidade concreta. Ele mencionou que, no Brasil, essa corrente "planejou um golpe de Estado", tramando a presença de tanques nas ruas e assassinatos de figuras-chave como o presidente eleito, o vice-presidente e o presidente da Justiça Eleitoral. Citando o Papa Leão XIV, que advertiu sobre o risco da democracia se tornar uma "máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas", Lula concluiu que o papel dos progressistas é "desmascarar" essas forças que, embora se apresentem como defensoras do povo, governam para os mais abastados.
O presidente brasileiro também ponderou que a democracia não é um fim em si mesma, mas exige reafirmação contínua e aprimoramento efetivo da vida das pessoas para manter sua credibilidade.
Ele argumentou que a democracia se torna falha quando "um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida", quando "um neto perde seu avô na fila de um hospital", quando "uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos", ou quando há discriminação racial e violência de gênero. Lula concluiu que é imperativo "substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança".
Agenda de Lula na Europa
Após os compromissos na Espanha, o presidente Lula seguirá para a Alemanha neste domingo (19). No país europeu, ele participará da Hannover Messe, a maior feira global de inovação e tecnologia industrial, que nesta edição presta homenagem ao Brasil. Além disso, Lula tem agendada uma reunião com o chanceler Friedrich Merz.
A viagem presidencial se encerrará em 21 de maio, com uma breve visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, Lula terá encontros com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

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