A corrida presidencial no Peru mantém-se em aberto, mesmo após cinco dias de intensa apuração dos votos. A votação, ocorrida no último domingo (17), reuniu uma expressiva quantidade de 35 postulantes à presidência, em um cenário de notável instabilidade política que viu o país andino ter nove presidentes em uma década.
A candidata de direita, Keiko Fujimori, assegurou matematicamente sua presença no segundo turno, agendado para 7 de junho, com aproximadamente 17% dos sufrágios. Contudo, a identidade de seu adversário segue indefinida, com o segundo e o terceiro colocados separados por uma diferença de menos de 3 mil votos.
O esquerdista Roberto Sánchez Palomino, aliado do ex-presidente destituído Pedro Castillo, contabiliza cerca de 12% dos votos. Logo atrás, com 11,9% dos votos válidos, está o ultraconservador Rafael Aliaga, conhecido por sua admiração pelo ex-presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump.
Até o início da tarde desta sexta-feira, o Peru havia apurado 93,3% das urnas. As atualizações podem ser acompanhadas em tempo real pela internet.
Com uma população de cerca de 34 milhões de habitantes, o Peru é o quarto país mais populoso da América do Sul e compartilha uma fronteira de 2,9 mil quilômetros com o Brasil, a segunda maior do país, superada apenas pela divisa com a Bolívia.
Gustavo Menon, professor de pós-graduação em Integração da América Latina na Universidade de São Paulo (USP), analisa que este pleito tem implicações significativas na rivalidade comercial entre China e EUA na região latino-americana.
“Roberto Sánchez se opõe veementemente à plataforma defendida por Keiko Fujimori, que busca um realinhamento com os EUA. Ela já sinalizou a Donald Trump a intenção de endurecer a política migratória e frear a influência chinesa, que se manifesta, principalmente, através do Porto de Chancay”, explica Menon.
Keiko Fujimori
Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, Keiko lidera a contagem com 2,6 milhões de votos, de um total de 27 milhões de eleitores. Esta é a quarta vez que Keiko disputa a presidência, tendo sido derrotada no segundo turno nas três eleições anteriores: 2011, 2016 e 2021.
As consecutivas derrotas de Keiko sugerem uma dificuldade em romper um teto de votos, atribuída à resistência popular à herança política de seu pai, condenado por graves violações de direitos humanos.
O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em política latino-americana, enfatiza a forte ligação de Keiko com o legado paterno.
“No Peru, Fujimori evoca a guerra contra o Sendero Luminoso, a reedição desse discurso antiterrorista que, nas províncias, é frequentemente associado às elites e ao neoliberalismo”, pontua Schavelzon.
A Esquerda
O candidato Roberto Sánchez acumula, até o momento, 1,890 milhão de votos. Ele é um proeminente aliado do ex-presidente Pedro Castillo, que foi deposto e preso sob a acusação de tentativa de golpe de Estado ao tentar dissolver o parlamento. Para seus defensores, Castillo foi vítima da poderosa estrutura parlamentar peruana, por representar os anseios da população rural.
Salvador Schavelzon, antropólogo e professor da Unifesp, descreve o perfil de Sánchez como nacionalista-popular.
“Trata-se de um nacionalismo popular que valoriza a cor da pele, o chapéu, símbolos importantes de um segmento político que avança gradualmente, mas enfrenta forte resistência das elites. Ele busca oferecer respostas às maiorias que trabalham na terra, do interior, e tem prometido reformas significativas”, comenta Schavelzon.
Entre as propostas de governo de Sánchez, destacam-se a nacionalização de recursos naturais, a convocação de uma nova constituinte para redefinir os poderes institucionais do Peru e a ampliação dos direitos trabalhistas.
Sánchez atuou como ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo de Pedro Castillo, em 2021. Psicólogo de formação, ele é deputado pelo partido Juntos Pelo Peru e foi um dos entusiastas da construção do Porto de Chancay, que recebeu vultosos investimentos chineses para facilitar o escoamento da produção para a Ásia.
Apesar de sua conexão com a população do campo, Schavelzon adverte que Sánchez é um político oriundo do jogo partidário do congresso peruano.
“Sánchez vem dos jogos partidários, da velha política do Congresso, que acena para o povo, mas muitas vezes se mostra mais próximo das elites, talvez novas elites que se reposicionam. Vimos isso em vários lugares da América Latina”, pondera o especialista.
Rafael Aliaga
Roberto Sánchez disputa a segunda vaga no segundo turno com o autodeclarado ultraconservador Rafael López Aliaga, que pode ser classificado como um representante da extrema-direita, segundo a análise do professor Menon.
“Se o Peru tiver um segundo turno entre Keiko Fujimori e Rafael Aliaga, o campo da extrema-direita sairá fortalecido. Haverá um realinhamento em direção à Casa Branca, apesar da interdependência comercial entre Peru e China”, acrescenta Schavelzon, que também leciona na Universidade Católica de Brasília (UCB).
Ex-prefeito de Lima, a capital do país, Aliaga é frequentemente comparado a Donald Trump ou ao presidente argentino Javier Milei, combinando um discurso ultraconservador com a defesa intransigente do livre mercado.
Denúncias de fraude
O ultraconservador do partido Renovación Popular possui 1,877 milhão de votos. Ele estava em segundo lugar no início da apuração, mas foi superado pelo esquerdista Sánchez quando os votos das zonas rurais começaram a ser contabilizados.
Com essa reviravolta no cenário, o candidato de ultradireita passou a denunciar uma suposta fraude eleitoral, sem apresentar provas concretas. A acusação de fraude foi prontamente rebatida pelo seu adversário.
“Fazemos um chamado firme ao nosso povo para manter a calma, a vigilância democrática e a confiança nos canais institucionais, aguardando com responsabilidade os resultados oficiais”, declarou o partido de Sánchez, Juntos Pelo Peru, em nota.
Em um comunicado preliminar, a Missão da União Europeia, responsável por fiscalizar as eleições peruanas, não encontrou indícios de fraude, apesar de atrasos em 13 locais de votação em Lima, que afetaram o voto de 55 mil pessoas.
Governabilidade
Com a sucessão de nove presidentes em dez anos, o Peru tem sido marcado por renúncias e destituições. O professor Gustavo Menon avalia que, independentemente do vencedor, a governabilidade não estará assegurada.
“Independentemente de quem seja o novo presidente eleito, a relação com o parlamento peruano será desafiadora, dada a pulverização dos partidos e do sistema eleitoral. Para formar uma base de governo, o presidente eleito terá que fazer uma série de concessões”, pontua Menon.
Menon enfatiza que, embora o Peru seja um regime presidencialista, “é o parlamento, em grande medida, quem conduz as agendas de governo”.
Crise política
Na eleição anterior, em 2021, o candidato Pedro Castillo venceu Keiko Fujimori no segundo turno. A eleição de um professor rural de centro-esquerda foi vista como uma surpresa, pois ele não figurava entre os mais bem posicionados nas pesquisas de opinião da época.
Contudo, Castillo foi afastado e preso após tentar dissolver o Parlamento, sendo condenado, em novembro de 2025, a mais de 11 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Para alguns, Castillo foi vítima de um golpe orquestrado pelo parlamento peruano.
Sua vice, Dina Boluarte, assumiu o cargo, mas reprimiu com violência as manifestações contra a destituição de Castillo, resultando em 49 mortes, segundo levantamento da Anistia Internacional.
Com baixíssima aprovação popular, Boluarte acabou destituída pelo Congresso em 10 de outubro de 2025.
Em seu lugar, assumiu o presidente do Parlamento, José Jerí, em uma gestão de curta duração. Em 17 de fevereiro do mesmo ano, o Congresso destituiu Jerí, e o cargo foi assumido interinamente por José María Balcázar Zelada, por eleição indireta do poderoso Parlamento peruano, apontado como o poder de fato no país andino.

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