Dizem que Astrogildo é abilolado do juízo e que, na sua mente, as coisas parecem nuvens ao vento, fazem-se e se desfazem minutos a minuto.
Astrogildo é bom de fala. Tem a palavra acertada para cada momento, mesmo que não seja lá tão compreendido. Aliás, quem poderá entender o sonho por ele contado acerca da água em Aracaju?
Assim, ele conta todo prosa com uma verve de artista circense. É claro que isso só cabe na cabeça de gente desmiolada, pois a Capital dos sergipanos jamais teria passado por um caos desses. Querem ver?
"Esta noite, por volta das onze horas e cinquenta e nove minutos, já beirando meia noite, eu acordei assustado devido a um pesadelo que me tirou o sossego pelo resto da dormida.
Sonhei que, repentinamente, sem qualquer aviso prévio, a água sumiu das torneiras... Os aracajuanos foram pegos de surpresa: na maternidade, não podia nascer criança, porque não havia como lavar o bebê; o centro cirúrgico parou as atividades, com o povo rasgado ao meio e sujo de sangue; as lavanderias fecharam as portas; a Deso não deu satisfação e fez iguá a uma muda de nascença. Somente no segundo dia, alguém se pronunciou, para falar de um pequeno furinho numa mangueira que vem da adutora do Velho Chico. Mas o furo rendeu e o rasgão se tornou o maior furo de reportagem... Um furdunço da moléstia!
Apareceu um monte de autoridade socada no meio do mato, para justificar a preocupação. Mas, cá pra nós, o povo do meu sonho, solução não apresentaram...
Os restaurantes não têm água para cozer os alimentos; as fábricas de gelo ensacaram vento; até missa não foi celebrada, por faltar água para misturar ao vinho. Batizado, só no Rio Sergipe. O bom é que a água, além de lodenta, já vem com o sal. As donas de casa saem à rua com o guarda chuva virado para cima, porque, se chover, apara-se a água. Os patos já estão com ensolacão; os cavalos arribaram a cabeça para tentar tocar as nuvens... Os caranguejos escaparam às mesas de bares, pois não há água para se lhes retirar a lama... Dizem até que o Arcebispo bebeu o óleo do Crisma, para matar a sede, após o clero secar as pias batismais.
A sorte é que o governador estava no estrangeiro. Senão, estaria iguá-zinho aos demais citadinos da bela urbe.
Quando eu estava para receber a notícia de que tudo já se havia recuperado, e que a água já retornou às torneiras, a vida já tomou o curso normal, eu acordei. Se tivesse me demorado um pouco mais no meio ambiente onírico, cerca de um mês e meio, mais ou menos, lá, no mundo dos sonhos, tudo já se teria resolvido rapidamente, num passe de mágica".
É como eu disse: Astrogildo só pode ser doido para ter um sonho miserável desse. Oxente! Ainda bem que foi só um sonho. Aracaju nunca se afligiu assim, não é mesmo. Afinal, que falta faz se faltar água? Ninguém quasemente a usa mesmo. Por mim, tanto faz. Mas, cá pra nós: Astrogildo é aloprado mesmo, não é?
Jeronimo Peixoto
PORTAL SERGIPE NEWS OFICIAL
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